Meus amigos, existem filmes que encontram a gente em lugares muito particulares. Não necessariamente porque contam uma história que já vivemos, mas porque conseguem tocar em sentimentos que, de alguma maneira, fazem parte da experiência de todos nós. O medo de perder alguém, a necessidade de ser aceito, as lembranças que nos constituem e o amor que, mesmo diante das maiores dificuldades, insiste em permanecer. Feito Pipa é um desses filmes.
E olha, não é pouca coisa o que essa história se propõe a contar.
No centro da narrativa está uma criança preta, no Nordeste brasileiro, que cresce sob os cuidados de uma avó amorosa. Um menino que gosta de brilhos, de elementos que a sociedade classifica como femininos e que, desde cedo, precisa conviver com os olhares e os preconceitos de um mundo que parece ter tantas regras sobre quem ele deveria ser.
Mas existe uma escolha muito bonita na maneira como essa história apresenta o personagem: não estamos diante de um menino que precisa descobrir sua identidade ou encontrar uma resposta sobre quem é. Ele já sabe. O desafio está em existir livremente em um ambiente que nem sempre está preparado para acolher aquilo que foge do que considera normal. E essa diferença muda bastante a maneira como enxergamos sua trajetória.
Ao mesmo tempo, a história nos apresenta outra transformação, talvez uma das mais dolorosas: a avó começa a enfrentar o Alzheimer. E é aqui que o filme encontra uma de suas camadas mais sensíveis. Afinal, como explicar para uma criança que alguém que sempre foi seu porto seguro está começando a perder justamente aquilo que constrói tantas das nossas relações: a memória?
O Alzheimer não afeta apenas quem recebe o diagnóstico. Ele atravessa a família, modifica relações, altera rotinas e coloca todos diante de uma realidade para a qual ninguém parece estar completamente preparado. Há um sofrimento muito particular em perceber que alguém continua ali, fisicamente presente, mas começa, aos poucos, a se distanciar de lembranças, histórias e referências que antes pareciam indestrutíveis.
E, para uma criança, como compreender tudo isso? Como lidar com as mudanças de alguém que representa tanto em sua vida? O filme encontra nesse encontro entre infância e doença um terreno delicado para falar sobre cuidado, amadurecimento e a importância dos vínculos afetivos.
Existe ainda uma terceira presença que atravessa essa construção: a mãe do menino. Sua história, marcada pela luta em defesa de espaços que considerava importantes, especialmente como mulher e professora, e pela violência que tirou sua vida, também ajuda a compreender o mundo em que essa criança está inserida. Não é apenas uma história sobre quem ele é, mas também sobre as pessoas que vieram antes dele, suas lutas e as marcas que permanecem.
É interessante como todas essas questões poderiam facilmente resultar em uma narrativa pesada, mas Feito Pipa encontra beleza justamente na possibilidade de olhar para elas com sensibilidade. Não se trata de ignorar a dureza do preconceito, da violência ou de uma doença tão devastadora, mas de reconhecer que a vida também acontece no meio de tudo isso. Nos gestos de carinho, nas pequenas liberdades, na convivência e naquilo que o afeto consegue construir, mesmo quando as circunstâncias parecem trabalhar contra nós.
E talvez seja esse o grande mérito do filme: entender que uma infância não deixa de ser infância porque está cercada de dificuldades. Ela continua sendo feita de desejos, personalidade, descobertas, brincadeiras e da necessidade de ser amado exatamente como se é.
Feito Pipa é um filme muito bonito, mas sua beleza não está apenas na história que escolhe contar. Está na maneira como aproxima assuntos tão diferentes e, ao mesmo tempo, tão profundamente humanos. A trilha sonora é marcante, com Cyndi Lauper, que acompanha todo o filme. É uma obra sobre identidade, mas também sobre pertencimento. Sobre memória, mas principalmente sobre o que construímos com as pessoas que amamos. E sobre uma infância que merece espaço para existir sem precisar se justificar.
Não é difícil entender por que uma história assim merece chegar tão longe. E, se depender da sensibilidade com que o filme olha para seus personagens, o Brasil tem um representante que não precisa de grandes artifícios para encontrar seu espaço. Basta permitir que essa história seja sentida.




