Eu sempre tive uma admiração muito grande por produções que conseguem transformar o cinema em uma experiência visual. E O Bosque Selvagem, da Laika, é um daqueles filmes que fazem a gente parar para observar cada detalhe.
Para quem não conhece, a Laika é um estúdio norte-americano de animação conhecido pelo trabalho com stop-motion, técnica que utiliza bonecos e cenários físicos fotografados quadro a quadro para criar a sensação de movimento. É o estúdio responsável por produções como Coraline e o Mundo Secreto, ParaNorman e Kubo e as Cordas Mágicas. Ou seja, estamos falando de um estúdio que já tem uma trajetória muito interessante quando o assunto é animação artesanal.
E, desta vez, foram sete anos de produção. Sete anos! É impossível não pensar na dimensão desse processo. Vivemos um momento em que a inteligência artificial consegue produzir imagens em poucos segundos, enquanto temos uma produção como essa, que exige tempo, paciência e um trabalho manual impressionante. E não estou aqui colocando a tecnologia como inimiga da arte, mas acho importante reconhecer o valor de uma produção em que cada movimento depende de um cuidado quase milimétrico.
Os cenários, as expressões e os movimentos dos personagens são impressionantes. Em vários momentos, dá vontade de pausar o filme para observar tudo com mais calma. É aquele tipo de trabalho em que a gente percebe o cuidado por trás de cada cena. E isso, por si só, já merece reconhecimento.
Mas seria injusto falar de O Bosque Selvagem apenas pela sua qualidade técnica. A história também conquista. Os personagens são envolventes, têm personalidade e conseguem fazer com que a gente se importe com o que acontece naquele universo. Existe profundidade na narrativa e o filme não depende apenas da beleza de suas imagens para sustentar a experiência.
Outro detalhe importante é a duração. São mais de duas horas de filme, tornando-se a animação em stop-motion mais longa já realizada. E aqui preciso fazer uma ressalva: senti um pouco o peso dessa duração em alguns momentos. Existem trechos em que a narrativa poderia ser mais enxuta, mas isso não chega a comprometer a experiência. O trabalho visual, os personagens e a história compensam boa parte desse ritmo. Afinal, é difícil não ficar impressionado com tudo o que a Laika conseguiu construir nessa produção.
Agora, preciso fazer uma observação que considero muito importante: não levaria crianças para assistir a esse filme.
E explico o porquê. Apesar da linguagem de animação e de todo o universo fantástico, O Bosque Selvagem apresenta violência explícita, decapitação, suicídio e outras situações bastante fortes. Na minha opinião, a classificação indicativa deveria ser de pelo menos 16 anos.
Acho importante trazer esse ponto porque ainda existe uma associação muito comum entre animação e conteúdo infantil. Mas não é bem assim! Animação é uma linguagem cinematográfica, não uma classificação de público. O fato de os personagens serem bonecos, os cenários parecerem saídos de um livro de fantasia e as imagens serem visualmente encantadoras não significa que o conteúdo seja apropriado para qualquer idade.
E aqui vale uma distinção: não considero a violência um defeito do filme. Ela faz parte da narrativa e não vejo necessidade de suavizar uma obra para torná-la mais palatável. Mas existe uma responsabilidade naquilo que apresentamos ao público, especialmente quando falamos de crianças e adolescentes. É preciso olhar para o conteúdo, e não apenas para a aparência da produção.




