Sabe aquele filme que você sai do cinema com o corpo gelado e a cabeça quente? Foi exatamente a sensação ao sair da cabine de imprensa de Antártida, a superprodução dos Estúdios Globo que chega aos cinemas no dia 17 de setembro. Ainda estou processando o que assisti...
Dirigido por Bruno Safadi e roteirizado por Claudia Jouvin, Antártida é o primeiro longa totalmente filmado no Estúdio de Produção Virtual dos Estúdios Globo, um espaço de 1.500 m² com painéis de LED e motor gráfico Unreal Engine, a mesma tecnologia que Hollywood usa em produções de Star Wars e da Marvel. O filme inclusive abriu o 54º Festival de Cinema de Gramado, o que já é um atestado de relevância.
Mas tecnologia é só o começo. O que me impressionou de verdade foi a riqueza de detalhes. Sabendo que o filme foi gravado praticamente dentro de estúdio, no calor do Rio de Janeiro, e ainda assim conseguiu me fazer sentir o frio extremo da Antártida... É de uma assertividade brilhante. Recentemente assisti ao documentário Pole to Pole, do Will Smith, na National Geographic. O documentário mostra os extremos do mundo, e um dos episódios era justamente sobre a Antártida. Fazer a relação entre o que vi no documentário e o que vi no cinema foi enriquecedor. A Globo conseguiu transparecer o sentimento e a sensação de estar num lugar extremo de uma forma que eu não esperava de uma produção nacional.
E é aqui que o filme ganha outra camada. Antártida não é só sobre a Antártida. O continente gelado é o cenário, o universo extremo onde os personagens são colocados para viver algo que faz parte da realidade de muitas mulheres, infelizmente: o abuso sexual. A história acompanha justamente uma cientista, interpretada por Marina Ruy Barbosa, que sofre essa violência logo que chega na estação, e a partir daí o filme se transforma num thriller de busca por respostas e por justiça. É a batalha das mulheres para se defenderem, para mostrarem sua força, para identificarem os responsáveis.
É um tema extremamente importante e relevante, e o cinema é colocado aqui como holofote para abordar algo que precisa ser dito, para que cada vez menos crimes assim aconteçam, e para que os culpados não saiam impunes. A ambientação extrema não é coincidência: o isolamento, o frio, a impossibilidade de fugir, tudo isso amplifica a sensação de prisão que a protagonista vive. A Antártida é metáfora e cenário ao mesmo tempo.
Embora a grandiosidade visual e a coragem temática me deixem orgulhoso, vou ser honesto: senti falta de um desenvolvimento maior dos personagens, da gente se envolver um pouco mais com as histórias deles. Entendo que esse não era o objetivo do filme, e isso vai ficando claro à medida que a história avança, mas aquela conexão mais profunda com cada personagem não aconteceu para mim. Por outro lado, isso também me fez refletir. Muitas vezes a gente vê essas histórias no jornal ou por pessoas próximas, e a história da pessoa também fica de lado, né? Os personagens vão se revelando ao decorrer do filme, não num ritmo que eu gostaria que acontecesse, mas funcionou para passar a mensagem. O propósito é muito maior do que a história individual de cada um.



