Sempre desconfiei de adaptações de videogame e, cá entre nós, tínhamos todos os motivos pra isso. A verdade é que saímos dessa sessão com a sensação de ter jogado, não assistido. E que sensação boa.
Ontem, em uma pré-estreia exclusiva e arrepiante no Shopping Jardim das Américas, em Curitiba, vivemos uma "experiência imersiva" sensacional. Convidados pela Espaço Z e pelo Cineplus Jardim das Américas, chegamos em um espaço transformado em cenário inspirado no filme: senha secreta, acesso pelas docas do shopping, elevador de serviços, corredores com atores caracterizados de zumbis e policiais e gente soltando gritos naquele clima que te joga na jornada do herói antes mesmo das luzes baixarem. Eu, que definitivamente não sou uma pessoa de filme de terror, já estava em alerta máximo.
E o filme, de certa forma, só continuou aquilo que a experiência começou. Dirigido por Zach Cregger, o mesmo de Barbarian e Noites Brutais, ele acompanha Bryan (Austin Abrams), um jovem que trabalha com transporte de órgãos para transplante. No meio de uma tensão pessoal com a namorada grávida, ele aceita uma última entrega por um dinheiro extra, numa noite de gelo e neve. Vocês já imaginam que essa entrega não sai como o planejado.
O que Cregger faz de mais inteligente aqui não está na história, e isso não é defeito. O grande lance é a forma como o filme cria uma atmosfera de gameplay do início ao fim, alternando com maestria cenas em terceira pessoa e planos em primeira pessoa que literalmente te colocam no lugar do protagonista. Sabe aquela tensão de estar jogando um survival horror, com o coração na boca a cada esquina? É exatamente essa sensação, só que sem controle na sua mão.
Para quem joga videogame, é simples: o novo Resident Evil é, sem sombra de dúvidas, a melhor reprodução de um jogo em filme. Veja bem, estamos falando estritamente de cinema. Em se tratando de série, The Last of Us (HBO) ainda rema muito na frente de qualquer coisa por aí. Mas entre filmes, nenhuma adaptação conseguiu capturar tão bem a lógica, o ritmo e o medo de cada decisão do jogo.
Parte do mérito é do Austin Abrams, que carrega o filme praticamente sozinho (sem dar spoilers). Como a câmera insiste em nos colocar na pele dele, cada escolha precisa parecer urgente, e parece. Você torce, sofre e sente na pele o medo do personagem. É a jornada do herói em versão survival horror, muito mais envolvente do que esperávamos de uma franquia que já tinha dado tantos tropeços nas telas. Mas, essa é uma nova era.
E aqui mora a grande surpresa: o filme não é o terror óbvio que o nome vende. Ele proporciona MUITOS sustos, sim, e a sala inteira pulava na cadeira. Mas, na mesma medida, arranca gargalhadas genuínas. É um thriller divertido de assistir. Tanto que, no meio de uma cena tensa, a Helô, ao meu lado, soltou espontânea: O CLT não tem um dia de paz. Passado o riso, a frase ficou ecoando: o Bryan é literalmente o funcionário mais comprometido da logística de órgãos do mundo, e o filme tem a gentileza de transformar esse sufoco em comédia sem perder a tensão.
Saímos da sessão com o coração ainda acelerado, a atmosfera de zumbis e neve ainda grudada na gente e uma certeza que eu jamais imaginaria carregar: um filme de terror entrou na minha lista de favoritos. O convite era pra uma noite imersiva e nos entregou uma experiência completa, do saguão à última cena.



